sábado, 12 de outubro de 2013

“Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida...”

Cidade de Aparecida do Norte recebe 10 milhões de turistas por ano, em uma emocionante viagem

Por Rafael Martins, para a edição 51 do Jornal Lince (outubro de 2012).

Rafael Martins
A fé dos romeiros que, todo ano, se dirigem à cidade de Aparecida do Norte é demonstrada de diversas formas. Há os que vão a pé, a cavalo... Há os que, de joelhos, pagam suas promessas. Muitos tentam fazer, pelas rodovias e trilhas, uma recriação nacional do famoso Caminho de São Tiago, na Espanha. Peregrinos chegam de todo o Brasil, movidos por uma fé que parece remover mais do que montanhas. Há o desconforto da viagem, das distâncias, mas tudo isso é nada quando se chega ao santuário e a emoção fala mais alto, na hora do encontra com a imagem da Senhora de Aparecida.

Dona Raimunda é de Belo Horizonte e, há 24 anos, organiza caravanas para Aparecida do Norte. E nem pensa em parar. Cada viagem, uma emoção diferente. Desta vez, reuniu 184 pessoas, que foram distribuídas em quatro ônibus, que saíram diretamente do bairro Goiânia, na região Nordeste de Belo Horizonte, quase na divisa com o município de Sabará. A viagem é longa e fria: são oito horas, com duas paradas apenas. Por dois dias, cada romeiro paga R$ 300 que dão direito a transporte, hospedagem e três refeições. Tanto tempo de prática deu a dona Raimunda, além de traquejo, bons contatos e muita segurança para planejar as viagens. Há dois anos, por exemplo, ela hospeda seus romeiros no Hotel Fortaleza, mas a reserva é feita um ano antes e confirmada quando faltam dois meses, já com a lista completa dos peregrinos. Por isso, ela é considerada pelo gerente do hotel, Paulo Azevedo, como uma cliente especial. E tem que ser assim, pois a cidade recebe, anualmente, mais de dez milhões de turistas.

SALA DAS PROMESSAS

Para receber os turistas, Aparecida do Norte conta com uma infraestrutura que impressiona. São hotéis, restaurantes, lanchonetes, lojas que vendem souvenires, roupas, brinquedos e, é claro, artigos religiosos. A alta temporada vai de agosto a novembro, aproveitando-se o dia especial dedicado a Nossa Senhora, que é 12 de outubro.

Aline Martins, acompanhada do pai, Ebson, e da tia Denise, foi pela primeira vez. Aline ficou impressionada com tudo e aproveitou para fotografar a Basílica, o Jardim Norte e a “sala das promessas”.

— As paredes são todas revestidas com fotos de pessoas desconhecidas e de gente famosa e ilustre, que ali deixaram suas mensagens — diz Aline, referindo-se aos ex-votos.

São fotos e também objetos, entre os quais se incluem até mesmo camisas de times de futebol, que, de alguma forma, representam o reconhecimento dos romeiros por alguma graça alcançada. As histórias se confundem e se irmanam nesse encontro de fé, em que todos se sentem, de repente, solidários e amigos para compartilhar histórias. Algumas tristes; outras, não. Dona Janete veio de Ribeirão Preto e, na “Sala das Velas”, pedia pela saúde do neto e proteção para toda a família. Ao acender a vela, rezava pela paz, “pois há tantas pessoas más no mundo, que só as bênçãos de Nossa Senhora podem nos ajudar a ficar em paz”. Não muito longe dali, Sérgio Dias, um idoso senhor, se movia de joelhos, em direção à basílica. O peregrino pagava uma promessa por causa da filha.

— Ela não andava, ficava paralisada e não tinha remédio que curasse. Só melhorou depois que eu vim aqui e pedi a Nossa Senhora; hoje, ela não tem mais nada.

Foto: Rafael Martins

Não é por nada que o encontro com a imagem de Nossa Senhora é definido pelos romeiros como um momento mágico. As pessoas choram, se ajoelham, fazem promessas e agradecem pelas graças recebidas. De manhã, quando coincidem com o horário das missas, as filas são enormes e exigem muita paciência. Mas quem vai não se arrepende. E não arreda o pé.

A determinação para que a data da padroeira fosse comemorada a cada dia 12 de outubro foi tomada em 1953, em uma reunião da Confederação dos Bispos do Brasil (CNBB). Até então, não havia uma data fixa para a comemoração.

UMA HISTÓRIA DE FÉ 

A história de Nossa Senhora Aparecida tem início quando da passagem do Conde de Assumar, Don Pedro de Almeida, governador da Província de São Paulo e Minas Gerais, pela Vila de Guaratinguetá, a caminho de Vila Rica (Ouro Preto). Os pescadores Domingos Garcia, Filipe Pedroso e João Alves foram obrigados a pescar no rio Paraíba, a fim de que se preparasse um banquete para o conde. Depois de muitas tentativas sem sucesso, os pescadores, por fim lançaram as redes e apanharam o corpo de uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, mas sem a cabeça. Lançada mais uma vez, a rede apanhou a cabeça da mesma imagem. Daí em diante, a pescaria foi um sucesso.

Durante 15 anos seguidos, a imagem ficou com a família de Felipe Pedroso, que a levou para casa, onde as pessoas da vizinhança se reuniam para rezar.

No ano de 1894, chegaram à localidade padres e irmãos da Congregação dos Missionários Redentoristas, para trabalhar no atendimento aos romeiros que, aos milhares, acorriam aos pés da imagem para rezar à Senhora "Aparecida" das águas. O nome original, cunhado pela Igreja Católica é Nossa Senhora da Conceição Aparecida, mas a cultura popular impôs Nossa Senhora.

PEQUENO ROTEIRO

• Aparecida do Norte é um município da microrregião de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba, a 168 km da capital de São Paulo. Sua população, em 2004 (último censo) era de 35.577 habitantes.

• A 8 de setembro de 1904, a Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi coroada, solenemente, pelo bispo D. José Camargo Barros.

• No dia 29 de Abril de 1908, a igreja recebeu o título de Basílica Menor.

• Vinte anos depois, a 17 de dezembro de 1928, a vila que se formara ao redor da igreja no alto do Morro dos Coqueiros tornou-se Município.

• Em 1929, nossa Senhora foi proclamada padroeira oficial do Brasil, do Papa Pio XI.

• Em 1984, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) declarou oficialmente a Basílica de Aparecida: Santuário Nacional; "maior Santuário Mariano do mundo".

• Hoje, a basílica está situada em uma cidade próspera, em que o turismo religioso se faz com segurança, cuja economia, como era de se esperar, gira em torno das atividades religiosa, com intenso comércio.

• Em Aparecida do Norte, não deixe de ver: Matriz Basílica (Basílica Velha); Basílica Nova; Capela do Santíssimo; Capela da Ressurreição; Morro do Cruzeiro; Morro do Presépio; Porto do Iguaçu; Sala das Promessas; Relógio das Flores; Jardim Norte. Dos morros tem-se belíssima vista da Serra da Mantiqueira.

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